Tentar avaliar um banco com a mesma planilha usada para uma montadora é erro comum — inclusive entre profissionais experientes. No setor financeiro, o ativo principal é crédito, o passivo inclui depósitos à vista e o patrimônio líquido responde a regras de capital que mudam com a regulamentação. O balanço parece familiar, mas a lógica é outra.
Ativo: crédito e liquidez
Em um grande banco listado, a carteira de empréstimos costuma representar entre 45% e 55% do ativo total. Títulos e equivalentes de liquidez vêm em seguida. Imobilizado — tão relevante em indústrias — é residual. Isso significa que a qualidade do ativo depende, sobretudo, da inadimplência esperada e da composição por segmento (PF, PJ, agronegócio, crédito imobiliário).
| Conta | Valor | % |
|---|---|---|
| Carteira de crédito (líquida de PDD) | 620 | 48% |
| Títulos e equivalentes | 380 | 29% |
| Interbancário e derivativos | 145 | 11% |
| Outros ativos | 155 | 12% |
| Total | 1.300 | 100% |
Provisão para devedores duvidosos (PDD)
A PDD reduz o crédito bruto no balanço e antecipa perdas esperadas. A leitura relevante não é o saldo absoluto, e sim a evolução da cobertura (PDD sobre créditos vencidos) e o comportamento por estágio no modelo de perda esperada (IFRS 9).
Quando a inadimplência sobe em segmentos de maior risco — como crédito não consignado ou carteira renegociada — a PDD pode crescer mais rápido que o crédito, comprimindo margem antes de aparecer nos headlines de inadimplência nominal.
Índice de Basileia e ativo ponderado por risco
Bancos não comparam capital apenas com o ativo total. Usam o ativo ponderado pelo risco (APR), que atribui pesos diferentes a cada classe de crédito. O índice de Basileia — capital regulatório dividido pelo APR — é a métrica de solvência que o Banco Central monitora.
Um índice de 13% pode parecer confortável acima do mínimo regulatório, mas a composição importa: capital de nível 1 (CET1) puro versus instrumentos híbridos; efeito de goodwill e ativos intangíveis deduzidos; risco operacional embutido no denominador.
Passivo: depósitos e funding
Depósitos à vista e poupança financiam boa parte do crédito em bancos de varejo. A estabilidade dessa base — e o custo relativo frente ao CDI — define boa parte da rentabilidade. Quando o funding migra para certificados e títulos de maior custo, a pressão aparece na margem antes de afetar o índice de capital.
O que não transferir de outros setores
- EBITDA — bancos não têm EBITDA no sentido industrial; receita financeira líquida substitui a lógica operacional.
- Dívida líquida/EBITDA — alavancagem regulatória usa capital, não múltiplos corporativos.
- Giro de estoque — irrelevante; substitua por giro da carteira de crédito e prazo médio.
Balanço bancário é documento de risco de crédito disfarçado de fotografia contábil. A pergunta certa é: quem deve, quanto e com qual colchão de perda.
Leitura prática para o trimestre
Ao abrir o próximo balanço de um banco listado, siga esta ordem: (1) formação da PDD e estágios IFRS 9; (2) crescimento da carteira por segmento; (3) índice de Basileia e CET1; (4) custo de funding e mix de depósitos; (5) carteira off-balance que pode retornar ao ativo (como crédito syndicated ou garantias).
Não é lista para decisão de investimento — é roteiro de leitura. O Contas não emite recomendação de compra ou venda de papéis bancários ou de qualquer outro ativo.